Ela gritava dentro de mim, querendo sair e me enlouquecendo já fazia dias. Ela só calava quando eu fazia o que ela pedia. No começo eu me segurei. Não iria deixar que nada nem ninguém tomasse conta de mim! Mas era realmente irritante ouvir aquela voz berrando dentro de mim. Tentar abafar o som me trazia uma angustia maior. Era como um aviso "ou você me escuta e faz o que eu quero, ou eu vou fazer seu corpo tremer, suas pernas amolecerem, seu coração bater rápido, roer suas unhas tão bem manicuradas, descabelar seu cabelo bem escovado!". Era como se uma força maior tomasse conta de mim! Não era racional, mas deixei que ela no controle, quem sabe assim me deixava em paz. Quem ou o que era, eu não sei. O que eu sei é que ERA LOUCA!
Eu me vi dirigindo pela cidade no meio da noite numa chuva horrível! EU dirigindo? SOZINHA? Nunca! Medrosa pra dirigir igual eu? e péssima no volante. Mas não com ela. Com ela dirigir era a coisa mais fácil. Era mecânico. Dei voltas e voltas pelo centro da cidade. "O que você está procurando?" me perguntei. Eu gritei dentro da minha própria cabeça. AONDE VOCÊ ESTA INDO?? ME LEVE DE VOLTA!! Ela ria e erguia o som no máximo. Algum tempo depois ela estacionou o carro e aos poucos eu voltei pro controle do meu próprio corpo. A voz em minha cabeça calara.
Olhei assustada pra onde eu estava. Eu conhecia aquele lugar. Pessoas saindo de um prédio. Jovens. Mochilas nas costas, correndo da garoa chata que caia do céu. Fiquei ali me perguntando o porque de estar ali. Eu conhecia aquele lugar. Mas por que eu estava ali? Foi quando eu vi o motivo daquilo tudo. Fiquei apavorada! NÃO! não podiam me ver ali de jeito nenhum! Liguei o carro e sai dali o mais rápido possível, não tão rápido porque sem ela eu não passava dos 40km/h.
Cheguei em casa, guardei o carro e subi pro quarto. Banho gelado e rápido. Como diabos eu tinha parado lá? Sai do box, me sequei e olhei no espelho. Mas aquele rosto não era o meu rosto assustado. Era meu rosto, sim, mas com um sorriso debochado. Era ela.
- Quem é você? - perguntei sussurrando, desejando que ninguém me ouvisse falando sozinha.
- Você ainda não entendeu? Eu sou seus desejos. Você tem me reprimido muito nos últimos meses. Você queria vê-lo, eu dei um jeito nisso. Pare de reprimir aquilo que você quer, óbvio, seja responsável, mas não deixe as chances passarem, elas podem não voltar. - e depois de uma piscadinha meu rosto refletido no espelho voltou a ser o meu.
Pisquei umas três vezes seguidas. Fui me deita. Noite longa. Mas no fundo eu senti aquela loca colocando novas ideias, não tão difíceis de aceitar. "Amanhã" eu pensei pra ela me ouvir. "Amanhã a gente faz isso". Senti um sorriso de satisfação dentro da minha cabeça, e nós adormecemos.

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